Nesse fim de semana vi uma entrevista com o poeta brasileiro Ferreira Gullar. Ele contava que em uma palestra foi convidado a opinar sobre a situação entre Palestina e Israel, na Faixa de Gaza. Diante de um pedido delicado, pois ele dividia o palanque com um palestino que já havia defendido 100 razões sobre o assunto, disse:
Eu e minha companheira nos encontramos e as vezes discutimos sobre variados assuntos. Ela defende suas razões, eu defendo acidamente as minhas. Ela vai embora e eu fico cheio de razão, sozinho. Dessa forma, "não quero ter razão. Eu quero é ser feliz."
É curioso pensar que a razão, mote de revolução intelectual no passado, hoje depara com um paradoxo entre o individualismo e o acesso global aos diversos "problemas" do mundo.
Há 300 anos atrás, quando surgiram várias das principais descobertas científicas sobre o nosso planeta, os estudiosos dedicavam, muitas vezes, uma vida inteira em um único Projeto. Era comum cientistas morrerem sem nunca terem divulgado seus descobrimentos. Insistia-se anos e anos até que algum invento fosse legitimamente aceito pela sociedade. Hoje, idéias são acessíveis diariamente e o registro é fundamental para assegurar a autoria do evento.
Chega a ser engraçado pensar que há 200 anos alguns lugares do mundo eram recém encontrados pela civilização dominante e hoje interferimos nas taxas de emissão de carbono da Índia, porque prejudicam nosso ecossistema no Brasil. Recebemos SPAM com notícias estranhas e protestos contra rituais que assassinam animais no Alasca e tememos a extinção desses bichos, completamente desconhecidos há 30 anos.
Não parece pretensioso ter razão em questões globais, uma vez que é difícil estabelecer simples critérios em uma comunidade local, pouco povoada?
Esses paradoxos não reduzem as maravilhas do nosso momento nem colocam um fim em tudo, pelo menos é o que acredito. Nossa civilização vive um conflito quando somos individuais por existência e razão, mas precisamos do outro para a felicidade.
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